quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Preconceito Linguístico: o que é, como se faz

Preconceito Linguístico – Marcos Bagno
 
Editora Loyola
Ano: 2011 (54 edição)
183 páginas, Brochura
Altura: 17,00 cm; Largura: 12,00 cm
Peso: 00,19 kg





“Se tantas pessoas inteligentes e cultas continuam achando que ‘não sabem português’ ou que ‘português é muito difícil’ é porque esta disciplina fascinante foi transformada numa ‘ciência esotérica’, numa ‘doutrina cabalística’ que somente alguns ‘iluminados’ (os gramáticos tradicionalistas!) conseguem dominar completamente.”
Marcos Bagno

      

Tu sabes falar português? E escrever, sabes? Será que fazes bom uso das regras gramaticais? No Brasil, há algum tempo fora lançado o livro Preconceito Linguístico, do linguista Marcos Bagno. Este livro chega como ajuda para combater uma ferramenta malévola usada pelas elites e alguns mal-intencionados para oprimir as classes mais humildes de nosso país. Mas o que é preconceito linguístico?
Segundo a linguista Marta Scherre, é o "julgamento depreciativo, desrespeitoso, jocoso e, consequentemente, humilhante da fala do outro ou da própria fala" geralmente atinge as variedades associadas a grupos de menor prestígio social. Ou seja, escrevendo em português claro é tirar o sarro ou desprezar o sotaque de pessoas (geralmente de outros estados ou de origem humilde) e a maneira como eles pronunciam e falam determinadas palavras.
No livro de 183 páginas são abordados quatro capítulos que discorrem sobre: A mitologia do preconceito linguístico; O círculo vicioso do preconceito linguístico; A desconstrução do preconceito linguístico e O preconceito contra a linguística e os linguistas. Além disso, o autor começa por expor os maiores mitos nutridos em nossa sociedade que são:

1-    A língua portuguesa apresenta uma unidade surpreendente
2-    Brasileiro não sabe português / Só em Portugal se fala bem português
3-    Português é muito difícil
4-    As pessoas sem instrução falam tudo errado
5-    O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão
6-    O certo é falar assim porque se escreve assim
7-    É preciso saber gramática para falar e escrever bem
8-    O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social

Escrito em linguagem descomplicada e de fácil assimilação o livro segue denunciando não só o preconceito como também os fomentadores do mesmo, citando abertamente os nomes de Arnaldo Niskier, o deputado Aldo Rebelo do PC do B (que de comunista não tinha nada), o saudoso professor Napoleão Mendes de Almeida, Pasquale Cipro Neto e a professora Dad Squarisi.
Durante a leitura Bagno deixa claro que o preconceito linguístico advém do preconceito social e que mudanças devem acontecer por parte das autoridades competentes para a desmistificação dos mitos mencionados acima.
Os seus livros a Língua de Eulália e Preconceito Linguístico têm se tornado leituras obrigatórias nos cursos de Letras e vale ressaltar também as dez cisões expressas no panfleto distribuído por Bagno em suas palestras:

1) Conscientizar-se de que todo falante nativo de uma língua é um usuário competente dessa língua, por isso ele SABE essa língua. Com mais ou menos quatro anos de idade, uma criança já domina integralmente a gramática de sua língua. Sendo assim,

2). Não existe erro de português. Existem diferentes gramáticas para as diferentes variedades de português, gramáticas que dão conta dos usos que diferem da alternativa única proposta pela Gramática Normativa.

3) não confundir erro de português (que, afinal, não existe) com simples erro de ortografia. A ortografia é artificial, ao contrário da língua, que é natural. A ortografia é uma decisão política, por isso ela pode mudar de uma época para outra. Línguas que não têm sistema escrito nem por isso deixam de ter sua gramática.

4) tudo o que os gramáticos conservadores chamam de erro é na verdade um fenômeno que tem uma explicação científica perfeitamente demonstrável. Nada é por acaso.

5) toda língua muda e varia. O que hoje é visto como certo já foi erro no passado. O que hoje é visto como erro pode vir a ser perfeitamente aceito como certo no futuro da língua.

6) A língua portuguesa não vai nem bem, nem mal. Ela simplesmente VAI, isto é, segue seu caminho, transformando-se segundo suas próprias tendências internas.

7) respeitar a variedade linguística de uma pessoa é respeitar a integridade física e espiritual dessa pessoa como ser humano digno de todo respeito, porque

8) A língua permeia tudo, ela nos constitui enquanto seres humanos. Nós somos a língua que falamos. Enxergamos o mundo através da língua. Assim,

9) O professor de português é professor de TUDO. Por isso talvez devesse ter um salário igual à soma dos salários de todos os demais professores.

10) ensinar bem é ensinar para o bem. É valorizar o saber intuitivo do aluno e não querer suprimir autoritariamente sua língua materna, acusando-a de ser “feia” e “corrompida”. O ensino da norma culta tem de ser feito como um acréscimo à bagagem linguística da pessoa e não como uma substituição de uma língua “errada” por uma “certa”

Eita livrinho porreta! Humano, solidário e libertador, um tapa desferido na cara da elite e uma boa aula para muitos professores "detentores" dos preciosos e inalcançáveis conhecimentos gramaticais. Depois desta carismática e enriquecedora leitura cabe a cada um fazer o melhor pela nossa língua e garantir a liberdade de todos os falantes de nosso idioma.


 Marcos Bagno

É professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília, doutor em filologia e língua portuguesa pela Universidade de São Paulo, tradutor, escritor com diversos prêmios e mais de 30 títulos publicados, entre literatura e obras técnico-didáticas. Atua mais especificamente na área de sociolinguística e literatura infanto-juvenil, bem como questões pedagógicas sobre o ensino de português no Brasil. Em 2012 sua obra: “As memórias de Eugênia” recebeu o Prêmio Jabuti. Ele também escreve uma coluna sobre língua portuguesa na revista Caros Amigos.


Lista Completa de Obras publicadas:

A invenção das horas (contos) (1988)
O papel roxo da maçã (infantil) (1989)
Rua da Soledade (contos) (1995)
A Vingança da Cobra (Infanto-juvenil) (1995)
A Língua de Eulália (novela sociolinguística) (1997)
Pesquisa na escola: o que é, como se faz (1998)
Preconceito linguístico: o que é, como se faz (1999)
Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical, mídia & exclusão social (2000)
Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa (2001)
Norma linguística (org.) (2001)
Linguística da norma (org.) (2002)
Língua materna: letramento, variação & ensino (org.) (2002)
O espelho dos nomes (infantil) (2002)
A norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira (2003)
Murucututu, a coruja grande da noite (infantil) (2005)
Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística (2007)
Não é errado falar assim! Em defesa do português brasileiro (2009)
As caraminholas de Barrigapé (infantil) (2009)
Vaganau (poesia) (2010)
Gramática: passado, presente e futuro (2010)
Gramática, pra que te quero? Os conhecimentos linguísticos nos livros didáticos de português (2011)
Festa no meu jardim (infantil) (2011)
O tempo escapou do relógio (infantil) (2011)
As memórias de Eugênia (romance) (2011)
Gramática pedagógica do português brasileiro (2012)
Conversa de gatos (infantil) (2012)
Gramática de bolso do português brasileiro (2013)
Sete erros aos quatro ventos: a variação no ensino de português (2013)
Marcéu (infantil) (2013)
Língua, linguagem, linguística (2014)
Pororoca, pipoca, paca e outras palavras do tupi (com Orlene L. S. Carvalho) (2014)
Gramática brasileña para hablantes de español (com Orlene L. S. Carvalho) (2015)

 Referências:

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 2011.
BAGNO, Marcos. A Lingua de Eulália: novela sociolinguística. 16. Ed – São Paulo, contexto: 2008.
O preconceito linguístico deveria ser crime, por Marta Scherre. Galileu,.
Marcos Bagno - https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcos_Bagno

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